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Opinião

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Cinzas na paisagem 16/01/2017

O mundo da política é, frequentemente, povoado por cinzas. Principalmente em democracias incipientes. Massas escuras se acumulam nos espaços e nas distâncias, dificultando a visão de atores e espectadores. É assim que o Brasil hoje se apresenta. Há nuvens plúmbeas esmaecendo a claridade para qualquer canto que se olhe. Para onde os políticos irão após a conclusão das meticulosas investigações da Operação Lava Jato? Chega a 200, comenta-se, o número de habitantes dos largos dutos abertos nas curvilíneas estruturas da afamada empreiteira que virou fonte maior da corrupção no país.

O Poder Judiciário recebe as glórias do aplauso, cantado e aclamado por camadas de todas as classes. Merece tantas loas? O Poder Legislativo, o mais aberto e exposto à indignação, vegeta no mais profundo poço da descrença. Seus participantes passam a vergonha do apupo quando se identificam em lugares de afluxo popular. O Poder Executivo, decidido a puxar a locomotiva de mudanças para tirar o país do atoleiro, continua a ser alvo de críticas do grupo que abriu o maior rombo nas finanças do Estado em todos os tempos. Dissonâncias e paradoxos se multiplicam nos vãos e desvãos da República, a indicar acentuada falta de bom senso tanto por parte daqueles que se dão ao trabalho de interpretar os acontecimentos quanto por parte das massas.

As trilhas do labirinto

Percorramos trilhas desse labirinto. Comecemos com o Judiciário, onde o juiz Sérgio Moro, elevado às alturas, tornou-se símbolo da moralidade. Não há como negar a coragem e, sobretudo, sua  determinação de seguir um roteiro bem traçado para apurar os desvios que se acumularam ao longo dos anos nas malhas do Estado sob o mando de um grupo  treinado na arte de trocar favores. Mas o exemplo de Moro serve para pavimentar a trajetória do Judiciário ou ele é uma exceção? Se lembrarmos, por exemplo, que dos quase 700 mil presos no Brasil, cerca de 40% ou mais esperam por julgamento? A inferência torna-se obvia: as rebeliões e os massacres que ocorrem no território, com destaque para as matanças de Manaus e Boa Vista, apontam o Poder Judiciário com sua parcela de responsabilidade na paisagem da insegurança nacional.

Ainda na esfera do Judiciário, não há como deixar de apontar a fúria legisladora que usa para reinar sobre uma pletora de assuntos. Será que o Congresso Nacional não tem competência, por exemplo, para dizer se o presidente de um mandato-tampão na Câmara dos Deputados pode ou não ser candidato à presidente na legislatura seguinte? Um juiz pode proibir a concessão de aumento de tarifas de transportes? Tem ele de se imiscuir no planejamento financeiro de empresas de transportes e nas planilhas governamentais? Subamos ao STF. Por falta de uma legislação infra-constitucional, o Supremo tem se transformado em fabriqueta de leis, sob o argumento de que apenas cumpre a missão de interpretar a Constituição. A avalanche legislativa chega até o terreno da primeira instância, onde juízes paralisam serviços da Internet, proíbem aumentos nas tarifas de transporte urbano etc.

Quanto à questão dos massacres nas prisões, só mesmo incautos e desinformados enxergam a União como a responsável única pela situação dos presídios, quando a tarefa da segurança é, primordialmente, dos Estados. Mas a segurança pública é uma questão que afeta a todos os Poderes. A vigilância de nossas fronteiras é crucial para fechar as fontes de abastecimento das gangues. Tarefa da União. Recursos do Poder federal devem ser disponibilizados para o adequado funcionamento dos presídios. Do Legislativo devem sair os instrumentos legais para o duro combate aos arsenais da bandidagem.

Nesse momento, porém, o Poder Legislativo se debruça sob sombras. Daí ser turva a visão do que poderá ocorrer com os cerca de 200 habitantes do planeta empreiteiro. Haverá para eles luz no fim do duto? A luzinha que se vislumbra é a vela do caixa dois. Isso mesmo. Recursos financeiros para partidos e candidatos teriam duas  origens: o caixa oficial, que recebe recursos doados e comprovados pelos partidos; e o caixa dois, com recursos não contabilizados, sujeitos, sim, a uma pena, porém não tão grave como a propina. Essa é a tese que ganha força nas interlocuções. Enfiar uma grande parcela do Parlamento na prisão provocaria uma balbúrdia monumental.

As reformas

Quanto ao Poder Executivo, vê-se um governo profundamente interessado em fazer decolar a nave da economia, sob o bumbo de grandes reformas, como a PEC do teto de gastos, a reforma da previdência, a modernização da legislação trabalhista e a reforma educacional, entre outras. Do outro lado da rampa, em palanques politiqueiros, o comandante Lula, sempre de vermelho a tiracolo, anuncia uma possível candidatura em 2018 para (vejam bem) “recuperar a confiança, a credibilidade” do país. É mesmo para gargalhar. 13 anos de PT queimaram as bandeiras da esperança e da fé. A confiança no país ruiu. E agora reaparece Lula invertendo a  ordem das coisas. Mais: pregando o crescimento com o uso do “compulsório” (dinheiro retido dos bancos) e das reservas internacionais.

O pior é que a galera que, por anos a fio, ganhou  trocados para gritar slogans e aplaudir o verbo roto e saturado de Lula, volta a vê-lo como o santo que vai salvar o Brasil. Lula, com 5 processos nas costas, espera uma revolução das ruas caso seja condenado em segunda instância e impedido de se candidatar à presidente em 2018.

Há muito mais a se ver sob as cinzas que cobrem o território. Mocinhos e bandidos se abraçam fazendo uma algaravia. Constroem-se estátuas para heróis, alguns merecendo o epíteto, outros nem tanto. A expressão demagógica ressurge como se o ontem já estivesse de todo sepultado. É o caso de pinçar o verso do poeta Reinhold Niebuhr: “Senhor, dai-me serenidade para aceitar o que não pode ser mudado;  coragem para mudar o que pode ser mudado; e sabedoria para distinguir uma coisa da outra." 

Gaudêncio Torquatojornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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Gaudêncio Torquato (Foto: Divulgação)



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