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Andando na trilha da cidadania 07/03/2017

Em seu clássico Considerações sobre o Governo Representativo, o filósofo inglês John Stuart Mill classifica os cidadãos em ativos e passivos, esclarecendo que os governantes preferem os segundos, por ser mais fácil dominar súditos ou pessoas indiferentes, mas a democracia necessita dos primeiros. E aduz: “os súditos podem ser transformados em um bando de ovelhas que se dedicam tão somente a pastar uma ao lado da outra”. Norberto Bobbio arremata a ideia com este sarcasmo: “e as ovelhas não reclamam nem mesmo quando o capim é escasso”.

A imagem calha nesses tempos turbulentos. Um clamor cívico tem se avolumado sob a arregimentação de ativistas de movimentos que se engajam em um processo de cidadania ativa, cuja força deriva da Constituição de 88. A Carta Magna é o marco que abriu horizontes de participação social. Pode-se até dizer que ali tomou corpo a redistribuição da política: deixou de ser um movimento de cima para baixo ou do centro para as margens para se tornar uma força de baixo para cima e para os lados.
            
O poder centrífugo, representado pelos Poderes formais (Executivo, Legislativo e Judiciário), passa a ser alvo de um rolo compressor, sob o manto de demandas e críticas da sociedade organizada, representada por movimentos de todos os tipos. A isso se pode chamar de micropolítica, uma modalidade que faz ecoar exigências e expectativas de comunidades.
            
A micropolítica carrega novas formas de contestação, ancoradas em novos circuitos de representação como associações, sindicatos, sondagens de opinião, grupos de regiões.
            
O fenômeno da internet, que abarca cerca de 50% da população mundial é outra frente de enormes impactos. A revolução digital que ganha celeridade a cada instante amplifica ao extremo as possibilidades de interação, quebrando os eixos e as formas tradicionais da comunicação massiva.
            
O fato de um alto ministro da mais alta Corte do país, o Supremo Tribunal Federal, poder ser criticado logo após proferir um voto, era algo inimaginável anos atrás. Trata-se de uma virada de mesa no fluxo informacional: as fontes, antigamente muito limitadas, se multiplicam por todos os espaços. Cada internauta pode ser fonte de informação e análise. Ou seja, a antiga equação da comunicação –F+C+M+R (Fontes, Canais, Mensagens, Receptores) – ganha nova leitura: as fontes encontram na rede tecnológica um leito natural para manifestar expressão, condição que só poucos continuam a ter na mídia tradicional (jornais, revistas, rádio e TV).
            
Esse novo posicionamento amplifica a teia de comunicação democrática. O progresso tecnológico redunda em maiores controles sobre a vida social e as tarefas do Estado. O processo de investigação da corrupção pela Operação Lava Jato ganha apoio maciço da sociedade. E assim, as redes sociais contribuem para oxigenar as veias cívicas da Nação. A inserção dessa pauta no sistema cognitivo da sociedade seria algo impensável caso tivesse como correia de transmissão apenas a mídia tradicional. Sob esse entendimento, podemos aduzir que o país começa a enterrar o ciclo da velha política sob a tuba de ressonância das mídias sociais. Novos comportamentos, novos atores, nova modelagem – eis a paisagem que sai das tintas dos milhões de internautas.
            
Por tudo isso, é razoável apostar na hipótese de que o Brasil, apesar de todas as mazelas, caminha bem na trilha civilizatória.

Gaudêncio Torquatojornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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Gaudêncio Torquato (Foto: Divulgação)



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