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A salvação da lavoura política 18/04/2017

A dose é cavalar: 320 pedidos de investigação feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. 180 políticos. De 2006 até 2016, o departamento de “operações estruturadas”, também conhecido como “departamento da propina”, do Grupo Odebrecht, movimentou R$ 3,3 bilhões. Esta é a grande fatura da Operação Lava Jato segundo a lista Fachin.

Ao final de um longo processo de depuração, sobrará uma parcela pequena de pessoas condenadas, com uma parte aliviada pela prescrição de casos, outra sendo arquivada, ainda na fase de denúncia, por falta de provas, enquanto um terceiro grupo deverá se safar da condição de réus.

De início, ressalta-se o fato de que os estilhaços fazem furos em todos os partidos, particularmente nos grandes e médios. Todos entraram na antecâmara do inferno. O cidadão, mesmo o mais ilustrado, não conseguirá distinguir os tipos de acusação – corrupção passiva, corrupção ativa, caixa dois e lavagem de dinheiro. Tudo é ilícito, tudo é motivo para condenação. A classe política aprofunda seus eixos na lama.

O que resta fazer para que os políticos obtenham avaliação menos negativa? Não adianta gesto isolado de uns tentando negar participação no balcão da propina. Notas para a imprensa dizendo “confiar na justiça”, “os delatores mentem”, “nunca participaram de conluios”, não conseguirão aliviar a posição no ranking da negatividade. Por isso, qualquer grande gesto na retaguarda da defesa precisa ter uma identidade coletiva. A tese é a de que a ‘salvação da lavoura’, para usar uma expressão popular, dependerá das chuvas que cairão na roça da economia. 

O resgate da economia e a consequente melhoria dos padrões de vida dos brasileiros, tanto frequentadores das margens quanto os do meio da pirâmide, aliviarão o ônus gerado aos políticos pela Operação Lava Jato. A economia puxa o “animus animandi” da sociedade, seus humores, seu bem-estar, seu mal-estar. Se os consumidores engordarem o bolso, terão barrigas mais satisfeitas e cabeças menos nervosas. O espírito punitivo dos agentes da Justiça entraria em refluxo, com menor disposição para punir e prender. Essa tese receberá questionamentos, mas este analista aposta na tese de que um país com maior grau de satisfação tende a ser mais complacente com a esfera política.

Portanto, não haverá “salvação” aos políticos fora do esforço para colocar o país nos trilhos. Significa intuir que os agentes carecem fazer mais que um acordo pela governabilidade: um pacto pelas reformas. Daí a necessidade de uma linguagem homogênea, integrada, com o mínimo de dissensões. A aprovação do marco regulatório da Terceirização começa a dar resultados. O segmento do Trabalho Temporário, cujo prazo foi ampliado para contratos de 180 dias, reage. Empresários do setor informam que, nos últimos dias, demandas ao setor chegam a 40% de aumento. A reforma da legislação trabalhista colocará o Brasil em larga trajetória.

A reforma da Previdência, em processo de debate, ampliará o grau de confiança de investidores. A classe política não pode continuar no balcão de barganhas, fazendo pressão, exigindo cargos. A atitude mais lógica é perfilar ao lado do programa reformista, sugerindo aperfeiçoamentos, apoiando e votando. A Operação Lava Jato tem um encontro marcado com a turma que alistou em suas fileiras. 

Se souberem entender a dinâmica dos astros, os políticos escolherão, desde já, as medidas para aliviar as altas temperaturas do amanhã. Que tal, por exemplo, escolher instrumentos mais adequados para balizar o pleito de 2018?

Ao Executivo cabe a liderança do processo. Urge fazer forte articulação para integrar propósitos entre as reformas que promove, as demandas da população, os altos interesses da Nação e o pragmatismo da classe política. O presidente é um homem do diálogo.

Resumo da história: a Operação Lava Jato faz um bem enorme ao país. 

Gaudêncio Torquatojornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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Gaudêncio Torquato (Foto: Divulgação)



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