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Opinião

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A maldição de Sísifo 02/05/2017

Não há como deixar de reconhecer: o produto nacional bruto da felicidade está escasso. Demandas: melhores serviços públicos, a partir da saúde, da educação e da segurança; mais dinheiro no bolso e menos impostos; representação política compromissada; condutas éticas e morais; equilíbrio entre os três Poderes, sem invasão de um nas competências de outro; menos espetáculo nas ações a cargo do Ministério Público e da Polícia Federal. Desafios: não gastar mais que se arrecada; reformar as relações de trabalho; garantir os recursos para pagar os aposentados; sistema tributário mais justo; novos métodos para a ação política, a partir de mudanças na modelagem eleitoral. Essa é a pauta que deve orientar o debate na frente institucional.

Analisemos algumas dessas situações. Desde o Plano Real, dos tempos de FHC, a carga de redistribuição colaborou para diminuir o imenso fosso que separa os territórios dos ricos dos bolsões dos miseráveis. Na era Lula, houve considerável salto de parte da classe C, que saiu das margens para ocupar o primeiro andar do centro da pirâmide. Mas a derrocada que se viu a partir do ciclo comandado por Dilma Rousseff pôs tudo a perder. 

Por isso, o brasileiro está insatisfeito. De um lado, dá as costas à política, indignado com o tsunami de corrupção. Quer um fiador da estabilidade econômica. Enquanto essa não aparece, as loas são despejadas no Judiciário, onde um juiz de primeira instância, Sérgio Moro, é entronizado como herói.  

Fosse escolher a lenda mitológica que mais se assemelha à sua vida, provavelmente o povo brasileiro colocaria a história do castigo de Sísifo, que viveu vida solerte e audaciosa, conseguiu livrar-se da morte por duas vezes, sempre blefando. Rei de Corinto, não cumpria a palavra empenhada, até que Tânatos veio buscá-lo em definitivo. Como castigo, os deuses o condenaram a levar montanha acima um grande bloco de pedra. Quase chegando ao cume, o bloco desaba montanha abaixo. A maldição de Sísifo é recomeçar tudo de novo, tarefa que há de perdurar pela eternidade.

O povo brasileiro se sente em estado de eterno recomeço. Quando acha que as coisas estão se normalizando, o desastre aparece.

Ora, que amor à Pátria pode existir em espíritos tomados pela indignação, pela violência, pelo rebaixamento dos valores morais, pelas negociatas que corrompem as veias do Estado? Que espírito público pode vingar no seio das massas quando partidos políticos dividem espaços de poder, de forma egocêntrica e ignominiosa?

Emigrar tem sido a opção de muitos brasileiros. A instabilidade deixa, hoje, 13,5 milhões de brasileiros sem emprego. Nesse contexto, não haverá saída ao país se não fizermos as reformas necessárias ao resgate da economia. Sem elas, não haverá estabilidade monetária.

A crítica sobre o desempenho dos governantes torna-se aguda. Cresce o número de reclamações, explodem as denúncias sobre negligências, malhas de corrupção, jogos de interesses. 

Urge cortar os laços com os galhos podres do passado patrimonialista e construir as vigas do futuro. Urge reformar a Previdência para a garantia de um horizonte menos perturbador para os aposentados. Urge um choque de gestão na máquina pública. Urge implantar a meritocracia como eixo da gestão.   

A reforma da estrutura estatal, nas três instâncias da Federação, torna-se um imperativo. A tão propalada reforma do Estado deve sair do papel. A base das mudanças se ancora na educação. A reforma educacional é absolutamente indispensável e urgente. O analfabetismo na população acima de 15 anos ultrapassa os 15%.  

No mais, os cidadãos brasileiros querem ter um Estado protetor e não viver sob o manto de um Estado paquidérmico e usurpador. 

Gaudêncio Torquatojornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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Gaudêncio Torquato (Foto: Divulgação)



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