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Mapeando o território de 2018 22/05/2017

O Brasil é mesmo um país imprevisível. Quando os sinais apontavam para um resgate da economia, mesmo de modo lento, eis que o Senhor Imponderável faz questão de nos fazer mais uma visita. De repente, a subida de uma íngreme montanha dá lugar a um gigantesco precipício. O país começa a viver a maior crise política da contemporaneidade, que abriga a delação dos irmãos Batista, donos da JBS, com base na gravação de uma conversa com o presidente da República, cujo teor ensejou decisão do juiz Edson Fachin, do STF, de apurar eventuais desvios de conduta que teriam sido cometidos por Sua Excelência na interlocução mantida com o gravador, o empresário Joesley.

O contencioso formado energiza a sociedade, intensifica a polarização entre alas, e, para culminar, mobiliza os três Poderes da República, que deverão se posicionar sobre matérias complexas. Críticas se sucedem e um oceano de incertezas se abre: renúncia do presidente? Impeachment? Cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE? Quem pode ser eleito para substituir o presidente em eventual vacância? Que regras devem ser mudadas para se propiciar eleição direta?

Os acontecimentos dos últimos dias farão desaguar seus resultados sobre o pleito político de 2018. As oposições não se conformam de ter perdido o poder com o impeachment da presidente Dilma. A situação tem dificuldade de formar um pacto de união. Veremos, seguramente, uma das mais contundentes batalhas eleitorais de nossa história.
         
O embate se desenvolverá sob o signo de mudanças. Significa fortalecimento dos eixos de nossa democracia participativa. A crise dispara mecanismos de animação política e mobilização de setores que até então se mantinham inertes. Esse é um dos frutos saudáveis da crise.

É visível a determinação dos maiores grupamentos da sociedade de mudar o status quo na esfera da política. A força desse contingente está na condição de tuba de ressonância, por meio da qual poderá dar capilaridade à sua visão, fazendo chegar até as margens seu ideário.

Parcela do eleitorado – uma minoria – se posiciona no patamar mais tradicional, assumindo postura conservadora. Tende a permanecer no entorno de perfis que encarnem o endurecimento de regras e costumes (defesa da família, contra o aborto, combate duro aos criminosos, contra união de pessoas do mesmo gênero, etc). Jair Bolsonaro é, por enquanto, ícone elevado ao altar conservadorismo.  

Em outra ponta do arco ideológico, um núcleo de esquerda vai se abrigar. Trata-se de grupos de posições radicais, que se encostam no extremo do arco ideológico, distanciando-se até de bandeiras históricas defendidas pela esquerda. A crise que solapa a imagem do petismo motiva a caminhada desse grupo para a extremidade.

Distanciando-se dos extremos, uma larga fatia social fixará seu habitat no meio da pirâmide sob uma muralha mudancista, mas ancorada por vigas da marca social-liberal. As forças do mercado darão o tom. E a pregação absorverá o discurso de flexibilização nas relações do trabalho, menor porte e menor custo do Estado, defesa da meritocracia e enxugamento dos cargos indicados por políticos. Reformas na política e a no campo dos tributos serão apregoadas.
         
O discurso político de 2018 será impregnado por demandas regionais.  A consequência aponta para a distritalização do voto, que ganhará força. Ou seja, veremos a luta das regiões por recursos, movimentos comunitários reivindicatórios, situação que poderá provocar enfraquecimento de forças políticas tradicionais.
         
O velho discurso estará saturado. A disposição dos brasileiros se inclina para Zaratustra, o profeta de Nietzsche, com sua verve: “novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga: cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas”.  

Gaudêncio Torquatojornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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Gaudêncio Torquato (Foto: Divulgação)



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