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Construir ou desconstruir a pátria 05/06/2017

Os brasileiros estão atônitos com a mais grave crise política que se instalou no País. Manchetes se sucedem catastróficas anunciando um Apocalipse diário e com múltiplas interpretações. À perplexidade, somam-se enorme interrogação e indignação com esse estado de coisas. O político e a política tornam-se o alvo. Como se a política fosse descartável numa democracia. Convenhamos, no meio desse furacão o bom senso deve prevalecer para o bem da Nação, de forma que nesse momento urge respeitar a ordem constitucional.

O Congresso Nacional não pode atropelar a Carta em nome de interesses mesquinhos de qualquer grupo; tem de segui-la ao pé da letra, para que o fundo do poço não se torne inalcançável. A história do Brasil é trágica demais para que nos afundemos em casuísmos que só nos levarão ao abismo. Da mesma forma espera-se que o Judiciário atenha-se à letra fria da lei, deixando de lado o viés político cada vez mais presente em suas decisões.

O fato é que não há saída além da política e é por isso mesmo que os representantes, por seus próprios erros, estão encurralados no canto do ringue, sob a bússola do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário. A Operação Lava Jato põe todos na defensiva.

A reflexão neste momento deve levar ao resgate da dignidade da atividade política. Urge separar o joio do trigo e cortar o cordão umbilical que a mantém ligada à corrupção endêmica. Que se punam os pecadores e que os inocentes promovam este resgate, em estrita obediência à Carta Magna, levando a cabo as reformas necessárias para resgatar a economia, como a trabalhista e a previdenciária.    

O que fazer para limpar a sujeira que borra a imagem dos homens públicos, eleitos para servir à Pátria? Colocar sobre ela camadas de tinta? Ora, a pintura deve ser feita por dentro. A reengenharia voltada para o resgate moral na vida pública é tarefa para mais de uma geração. Mas pode ser iniciada já. Primeiro passo: o homem público deve cumprir rigorosamente o papel que lhe cabe. Segundo: punir os que saem da linha.  

Pensemos na grandeza da Pátria. Países são apenas expressões geográfica, Estados são formas de equilíbrio político. Mas a Pátria transcende esse conceito: é sin­cronismo de espíritos e corações, aspiração à grandeza, comunhão de esperanças, solidariedade sentimental de uma raça. Enquanto um País não é Pátria, seus habitantes não formam uma Nação. Este breve resumo, pinçado de um dos mais belos ensaios morais sobre a mediocridade, de autoria de José Ingenieros, serve como lição aos nossos governantes. Construir a Pátria para se alcançar o estágio avançado de Nação se configura como o primeiro dever do homem público.

A ideia pode parecer despropositada a porta-vozes da politi­cagem e demagogos que fartam os apetites com a exploração do senti­mento cívico das populações. Depois de 517 anos do Descobrimento, a Pátria brasileira continua distante do nosso sonho. Estamos longe daquela emulação coletiva que distingue na Mãe Pátria o anelo da dignidade. Basta observar a situação de descalabro que ameaça o país nessa crise. O vácuo entre os Poderes e a sociedade é oceânico. A descrença nas instituições se espraia vertiginosamente. Um poder sem moral se instala nos ambientes. As fontes éticas se esgotam. A Operação Lava Jato recebe ameaças. Injustiças ganham corpo.

Os traços da civilização brasileira carregam uma dose elevada de barbárie. A modernidade que se vê ao redor, nos grandes centros e até no interior do País, simbolizada por avanços da tecno­logia, pela capacidade de produzir bens e serviços sofisticados, pela revolução nas comunicações, na moda, na cultura e nos costumes, não consegue passar a borracha no Brasil do analfabetismo funcional (que ainda atinge milhões de brasileiros), do território violento, das rique­zas devastadas pela ambição, da desintegração de padrões de relacio­namento social e do solapamento de valores fundamentais, como o culto à família, o cumprimento do dever, o respeito às tradições e a defesa do bem comum. Alguém poderá objetar: mas essa é a inversão moral que toma conta do mundo, ou o paradigma do “puro caos”, como assim designa Samuel P. Huntington, quando assinala a ruptu­ra da ordem, a anarquia crescente, a onda global de criminalidade, a debilitação geral da família e o declínio na solidariedade social.

A hipótese é razoável, mas o adendo é indispensável: o Brasil põe um molho peculiar no cardápio da entropia universal, com as mazelas do passado colonial, entre as quais o patrimonialismo, cujo DNA tei­ma em fundir a res publica com a coisa privada. Essa é a razão da crise e a raiz de nossas excrescências. Por isso, a política, entre nós, é profissão, e não missão. Para corrigir o conceito, urge refundar a Re­pública corrompida. Quando uma República se corrompe – lembra Montesquieu –, não se pode remediar nenhum dos males que nascem, a não ser eliminando a corrupção e voltando aos princípios. Como combater a corrupção sem eliminar os corruptos? Eis o dilema.

A assepsia deve ser geral. A começar pelo Poder Executivo, cujas atitudes devem guiar-se pela ideia de um projeto de longo prazo para o País, com escala de prioridades e abolição de casuísmos, gastos per­dulários, cooptação ilícita de apoios e partidarização do Estado. O corpo parlamentar há de aceitar a concepção de que o mandato pertence ao povo. O representante é um fiduciário que de­fende interesses gerais, e não particulares, e que tem deveres e direitos, entre os quais o ganho pelo trabalho. E não o desleixo ou a locupleta­ção quando falta ao serviço. Os quadros do Judiciário hão de lembrar que “os juízes devem ser mais reverendos que aclamados e mais circunspectos que auda­ciosos”, elegendo a integridade como virtude, como ressalta Bacon. Se os Poderes cumprirem as funções que lhes são atinentes, o País avançará, as leis serão obedecidas e as instituições, mais respei­tadas. A cidadania ampliará seus foros. E as sombras que escondem perfis de caráter maculado refluirão sob o sol de um tempo mais cla­ro e menos corrosivo. Teríamos menos violência nas ruas. Partidos e candidatos assépticos. Campanhas mais éticas e menos extravagantes. Eleições mais limpas. A fé voltaria a brotar nos corações. 

Gaudêncio Torquatojornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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Gaudêncio Torquato (Foto: Divulgação)



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