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O dandismo na política 26/10/2009

O dandismo, maneira afetada de uma pessoa se comportar ou se vestir, "é o prazer de espantar". Essa definição, do poeta francês Baudelaire, um dos precursores do simbolismo, explica a extravagante performance que o senador Eduardo Suplicy exercitou, há dias, nos corredores do Senado, após vestir uma sunga vermelha sobre as calças e assumir o papel de Super-Homem no teatrinho produzido por um programa cômico de TV. O dândi é incapaz de resistir quando o desafiam, principalmente quando divisa a possibilidade de se tornar estrela no palco midiático e atrair a atenção das massas. Se o protagonista pertence ao mundo competitivo da política, a atração pelos holofotes é fatal. Nesse caso, os limites da liturgia do cargo costumam ser rompidos. E os atores, motivados a participar de encenação que tem mais que ver com estripulia circense e comédia farsesca. A vontade de aparecer na mídia é tão obsessiva que a cognição sobre os limites entre atos convenientes e inconvenientes, normais e ridículos, se torna esmaecida na mente dos personagens. Brandir a espada do He-Man, lutar jiu-jítsu, imitar o berro de Tarzan ao lado da macaca Chita ou assumir o papel de cantantes românticos, mesmo que tais desempenhos tenham ocorrido nos antigamente respeitados espaços das Casas Legislativas, são, para eles, simples esquetes que não ferem o decoro parlamentar. Afinal, onde se cruza a linha do bom senso com a ridicularia política?

Essa fronteira, vale lembrar, sempre apresentou bifurcação. A estreita relação entre a arte dramática e o artifício da política data dos tempos antigos. Luiz XIV costumava assumir o papel de ator em encenações e bailes nos jardins de Versalhes. Napoleão, para compensar a pequena estatura, vestia-se com muita pompa. Hitler ensaiava a representação para as massas, incluindo aulas de declamação e postura dadas por um ator provinciano, de nome Basil. Bem antes, em 64 a.C., Cícero, o mais eloquente advogado do ciclo de César, guiou-se por um manual de representação, produzido por seu irmão Quintus Tullius, para vencer a campanha ao Consulado de Roma contra Catilina. O roteiro sugeria modos de se apresentar e falar. Coisas assim: "Seja pródigo em promessas, os homens preferem uma falsa promessa a uma recusa seca." Entre nós, a arte da representação também tem sido bastante cultivada. Jânio Quadros dava ênfase à semântica por meio de estética escatológica: olhos esbugalhados, cabelos compridos, barba por fazer, jeito desleixado, caspa sobre os ombros, sanduíches de mortadela e bananas nos bolsos, que comia nos palanques, depois de anunciar para a massa, com ar cansado: "Político brasileiro não se dá ao respeito. Eu, não, desde as 6 horas da manhã estou caminhando pela Vila Maria e não comi nada. Então, com licença." E devorava a fruta, sob os aplausos da multidão. Não tinha nenhuma fome. O ator histriônico havia se refestelado com uma feijoada, tomado um pileque, dormido na casa de um cabo eleitoral e acordado quase na hora do comício.

Portanto, não deve causar surpresa o fato de que nossos políticos continuam exímios na arte de representar. O que causa reação negativa é a esquisitice de parlamentares cuja aparência estrambótica chega a agredir o cargo que ocupam. Em 1949, o deputado Barreto Pinto (PTB) - eleito pelo Rio, na época Distrito Federal -, fotografado de fraque e cueca samba-canção, foi cassado por falta de decoro. Idos tempos. Causa estranheza, hoje, a apropriação exagerada do instrumental das artes cênicas pelo ator político. Tal invasão os leva a substituir literalmente os teatros pelos corredores da Câmara e do Senado, a confirmar a previsão do especialista Roger Ailes, contratado por Nixon em 1968 para produzir seus debates na TV: "Os políticos terão de ser, um dia, animais de circo." A tendência a disseminar a palhaçada pela seara política é mais que previsível diante de fenômenos que carimbam a vida parlamentar: escândalos envolvendo deputados e senadores, gestos e atitudes aéticos, velhas e novas formas de patrimonialismo, descrença geral na classe política. Ademais, o princípio que inspira a índole de grande fatia da representação é aparecer a qualquer custo. No Estado espetáculo, a visibilidade é chave mestra da competição. Não por acaso, o tarimbado Juca de Oliveira se esbalda ao interpretar sua peça Happy Hour. Dispõe de farta pimenta para seu menu. O único receio da classe artística é ver os corredores parlamentares transformados em espaço cênico. Ai, sim, teatros poderão esvaziar-se.

Ante o desenho de um grupo que, sob a ostentação do pavoneamento, prefere o risco da chacota às regras do decoro, indaga-se: perfis circenses subirão ao pódio? Pouco provável. Há um lado da moeda que parece escapar ao crivo da classe que se esforça para demonstrar as lições de Stanislavski (1863-1938), Brecht (1898-1956) e Lee Strasberg (1901-1982), os três grandes mestres da arte dramática. Funciona assim. A opinião pública desenvolve uma concepção a respeito dos políticos. A imagem que retém deles, fruto do conhecimento, se esgarça ao longo do tempo, principalmente quando perfis são flagrados de maneira capenga. Alguns ingressam no catálogo do folclore; outros, na agenda da baixaria. A cada novo tropeço, mesmo sob o abrigo do humorismo das TVs, a imagem vai ganhando borrões. O preço será cobrado adiante, no momento do sufrágio, quando o eleitor junta emoção e razão: "Fulano extrapolou, sicrano abusou da minha paciência." E assim, folclóricos, palhaços e engraçadinhos serão despejados fatalmente no "vale dos caídos".

Bom conselho aos apaixonados pelas luzes da TV pode ser o do general De Gaulle, que sempre procurou preservar a liturgia do poder: "Os maiores medem cuidadosamente suas intervenções. E fazem delas uma arte." Menos plumas, lantejoulas, penachos, sungas, espadas, vestes de Tarzan, penduricalhos e estilos bombásticos. Mais substância, foco, ações concretas, atitudes firmes e corajosas. Menos circo e mais Parlamento.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.

(Publicado no O Estado de S. Paulo, de domingo, 25/10/2009, pág A2)

 

 

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Gaudêncio Torquato (foto: Divulgação)



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