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Idade avançada é entrave para superar analfabetismo, apontam especialistas 12/05/2009

 

Brasília, 12/05/2009 - A idade avançada do analfabeto brasileiro é apontada, tanto por especialistas como pelo governo, como um dos principais entraves para superar o problema. A idade média da parcela da população que não sabe ler e escrever é 54 anos. Se a taxa de analfabetismo no país hoje é de 10%, na faixa etária acima dos 65 anos o percentual sobe para 31%. Entre os brasileiros de 47 a 55 anos, o índice é quase o dobro da média nacional: 19,5%.

A professora da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em educação de jovens e adultos Maria Clara Di Pierro afirma que a persistência do problema em idade avançada faz com que o ritmo da redução do analfabetismo continue muito lento.

“Nos grupos mais jovens o analfabetismo teve uma redução importante nas últimas décadas graças à expansão do acesso à escola pública. Mas é muito mais difícil eliminá-lo na medida em que você vai diminuindo os números, especialmente quando você chega a índices inferiores a 10% e a patamares residuais, abaixo de 5%”, analisa.

Para o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcelo Medeiros, as reduções recentes das taxas de analfabetismo ocorreram não porque os brasileiros mais velhos aprenderam a ler e a escrever, mas porque esses idosos morreram.

“A taxa de analfabetismo cai fundamentalmente entre os adultos por questões demográficas. Esse analfabetismo que foi criado no passado se mantém porque é muito difícil e caro educar adultos. Esse é um analfabetismo que é triste e sobre o qual a gente tem pouco poder de ação”, acrescenta.

Medeiros acredita que o próprio movimento demográfico vai ajudar a reduzir as taxas no futuro. “Os adultos analfabetos que foram produzidos no passado são em número muito maior do que a produção de analfabetos de hoje. Atualmente as crianças vão para a escola muito mais do que no passado, então naturalmente vai ocorrer uma queda sistemática da taxa de analfabetismo”, analisa.

Aos 88 anos, o aposentado José Rodrigues Reina, morador de São Paulo, contraria as estatísticas. Há um ano, ele voltou a estudar em uma turma de alfabetização da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e garante que não lhe falta disposição para frequentar o curso.

Ainda criança, Reina começou a trabalhar nas lavouras de Santa Ernestina, no interior do estado, cidade em que, segundo ele, quase ninguém era alfabetizado. O aposentado conta que teve curiosidade de aprender a ler, mas o pai dele achava que “casa cheia de mantimento é melhor do que estudo”.

Ele chegou a estudar sozinho, escondido do pai. Conseguiu aprender algumas palavras que o ajudaram, quando chegou à capital paulista, em 1945, a pegar o bonde correto para chegar às fábricas em que trabalhou. Hoje é um dos alunos mais dedicados da turma. Não falta um dia, faz todas as tarefas de casa, e tem progredido bastante.

Mas, se José Reina tem disposição para continuar estudando, para muitos adultos que voltaram às salas de aula é difícil ter o mesmo comprometimento. O índice de evasão nas turmas de educação de jovens e adultos é sempre alto. Muitos deixam de frequentar os cursos porque não conseguem conciliar atividades cotidianas com os livros.

“Essa evasão tem fatores extraescolares e propriamente escolares sempre atuando em conjunto. Ele abandona a escola em função da saúde ou porque a filha arrumou um emprego e ele precisa cuidar do neto. Ou ainda porque arrumou um bico à noite, vários fatores influenciam”, diz a especialista Maria Clara.

A professora avalia que, mesmo com todas as dificuldades para estimular os adultos a aprender a ler e escrever, o problema do analfabetismo nessa parcela da população não pode ser ignorado.

“Essa lógica só da renovação demográfica, de esperar que os velhos morram, não é uma lógica do direito. É preciso pensar que a educação de adultos não é uma coisa que vai acabar depois de amanhã, e que, portanto, você tem que investir para ter estrutura, formar professores, ter qualidade, ter serviços que não sejam tão efêmeros como são as campanhas.”

O presidente da organização não governamental Ação Educativa, Sérgio Haddad, defende que é preciso pensar em estratégias específicas para atrair esse público que, em sua maioria, não tem mais a educação como uma prioridade.

“São pessoas que, de certa forma, não se submeteriam a um programa de alfabetização que não tivesse uma perspectiva de atender a sua necessidade de pessoa com mais de 50 anos. [É preciso criar] Programas com conteúdos do seu interesse, que eles vissem isso como uma necessidade, porque é um sacrifício para essas pessoas, depois de um dia de trabalho, passar por programas de escolarização que não têm uma imediata relação com a sua própria vida”, afirma. (Agência Brasil - Amanda Cieglinski - colaborou Vinícius Konchinski)



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