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Programa paulista ajuda analfabetos a lidar com as palavras 13/05/2009

 

São Paulo, 3/05/2009 - Cícera Laurindo Guerra, 32 anos, aproxima-se caminhando a passos curtos e, timidamente, senta-se em frente a uma voluntária e pede ajuda. Ela traz nas mãos uma carta enviada pela escola de sua filha, que ainda nem completou 3 anos de idade. Ao entregar o documento, Cícera é surpreendida por uma pergunta:

– A senhora não sabe ler?, questiona a atendente.
– Sei, responde Cícera. – Eu leio, só que eu não entendo muito bem, sabe?

Mãe zelosa e preocupada com os recados da professora de sua filha, Cícera é mais uma pessoa atendida pelo Programa Escreve Cartas, no Poupatempo Santo Amaro, um centro de serviços públicos localizado na zona sul da cidade de São Paulo.

Assim como outros que já haviam passado por ali, ela procura auxílio para não se perder em meio a um mundo de letras e palavras que, para ela, não fazem muito sem sentido. “Preferi pedir ajuda. Vai que eu assino uma coisa que não entendi direito e me arrependo”, justifica.

Cícera nasceu no município de Inhapi, no sertão de Alagoas, e só pôde estudar quando chegou a São Paulo há 16 anos. Concluiu o ensino fundamental em um supletivo, mas reconhece: “Não aprendi direito. No supletivo, se você aprendeu ou não aprendeu, vai empurrando para frente.”

Desde outubro de 2001, o Escreve Cartas ajuda pessoas como Cícera. O programa do governo de São Paulo tem voluntários prestando auxílio em outros três centros de serviços da região metropolitana da capital. Até hoje, mais de 200 mil atendimentos já foram realizados: leitura ou redação de cartas, preenchimento de formulários e até confecção de currículos profissionais, tudo de graça.

O estado de São Paulo concentra 10,5% do total de analfabetos do país (14 milhões). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,49 milhão de brasileiros com mais de 15 anos que não sabem ler e escrever vivem na região. Em números absolutos, o estado só fica atrás da Bahia (1,88 milhão) no ranking nacional do número de analfabetos.

Clarisse Mendonça Aun, 83 anos, é uma das voluntárias do Escreve Cartas e coordena as equipes de atendimento. Segundo ela, o caso de Cícera é comum, mas há outros em que a pessoa mal reconhece as letras. “Vem gente aqui que não sabe nem escrever o nome”, diz ela. “Tem moço bem articulado que vem pedir para a gente preencher formulário para CPF.”

Nilza da Silva Novaes, 26 anos, é um exemplo de jovem que procura ajuda do programa Escreve Cartas. Ela chegou ao Poupatempo afirmando que queria imprimir um currículo, já que lá a impressão é grátis. Minutos depois, questionada pela reportagem, ela afirmou que não lê nem escreve muito bem. "Dá vergonha, né? Mas...”

Baiana de Paramirim, Nilza estudou até a 6ª série do ensino fundamental. Chegou a São Paulo em dezembro em busca de um emprego e sabe que o fato de não ter o domínio pleno da leitura e da escrita “atrapalha, e muito” a concretização de seus planos.

Ela, no entanto, afirma que os cuidados com a casa e o filho tiram a vontade de estudar novamente. Mesmo arrependida por ter deixado a escola, admite que não deve voltar a estudar nos próximos meses.

Para a professora Maria de Lurdes Valino, integrante do Grupo de Estudos sobre Alfabetização e Letramento da Universidade de São Paulo (Geal-USP), o perfil do analfabeto está mudando. “Temos uma população grande de jovens que deixam a escola sem saber ler nem escrever.”

 

Orientador pedagógico e professor de turmas de educação de jovens e adultos (EJA) há 20 anos, Carlos Alberto Daniel dos Santos também já notou o aumento da presença de jovens em turmas de alfabetização. Para ele, a má qualidade do ensino público está criando uma população que não é capaz de compreender o que lê, os chamados analfabetos funcionais. “Nossa atuação [na EJA] deveria acabar, mas está aumentando”, aponta.

A voluntária do Escreve Cartas diz que sempre dá conselhos sobre a importância de se voltar para a escola. Ela afirma que gostaria de ver implementada uma ação que pudesse aproveitar a presença dessas pessoas no local onde funciona o programa e já direcioná-las para turmas de educação de jovens e adultos. “Tinha que existir uma forma de pegar todo este povo e pôr na escola na hora, no dia em que vem aqui.” (Agência Brasil - Vinícius Konchinski)



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